Espécie em extinção

Para que serve um diretor de futebol de clube grande? As funções mudaram muito com o passar dos tempos.

Hoje, procuradores, empresários, supervisores e diretores técnicos profissionais, geralmente ex-jogadores ou juizes de futebol, fazem às vezes dos antigos diretores de futebol. Isso sem falar em assessores de imprensa, que todo jogador que se preze também tem um.

Na época de ouro do futebol brasileiro, que abrange as décadas de 60 e 70 e até de 80, o diretor de futebol tinha importância fundamental.

Idealmente, ele era um paizão dos jogadores, que sabia ser duro na hora certa, mas também passar a mão na cabeça nos momentos difíceis. E um esteio, um porto seguro, caso o jogador necessitasse de um apoio – financeiro ou não – em determinado momento.

Nas nossas duas primeiras vitórias em Copas do Mundo, o diretor de futebol, Paulo de Carvalho, teve papel decisivo. Entre dezenas de histórias, seleciono esta: Gilmar era um dos titulares absolutos do time, um de seus líderes. Mas andava acabrunhado na concentração, que era então muito rígida. Gilmar estava noivo de Raquel, uma moça de uma família classe média alta de São Paulo, que não via com bons olhos seu namoro com ela. Jogador de futebol ainda era discrminado, não sonho de consumo de moçoilas candidatas aos estrelato.

A seleção brasileira iria embarcar dali a alguns dias para a Suécia onde passaria quase dois meses. Desnecessário dizer a razão da tristeza do grande goleiro.

Paulo de Carvalho entendeu tudo, chegou perto de Gilmar e o convidou para sair da concentração, dizendo a todos que ele necessitava fazer uns exames clínicos num Hospital. Ao sair, Paulo de Carvalho disse-lhe: “deixe-me em minha casa aqui na Alameda Barros, no bairro de Santa Cecília. E vá ver sua noiva com o meu carro. Isso vai ficar entre nós”.

Gilmar não acreditou, porém mais do que depressa deu um abraço no Chefe e foi ver a sua amada. Só retornou perto do jantar, super agradecido. Gilmar foi o goleiro menos vazado da Copa de 58 e um dos alicerces do time. Quem não se lembra de Pelé chorando no seu ombro, dentro do gramado, depois dos 5 a 2 sobre os suecos, que nos deram o título?

A relação entre diretor de futebol e jogadores mudou no dia em que o atacante do time passou a ter mais dinheiro no banco que o homem que ficava fora de campo, mas que era seu superior hierárquico.

No Palmeiras dos tempos da Academia havia um diretor de futebol de nome Domingos Ianacone, carinhosamente chamado de Minguinho por todos. MInguinho tinha uma loja de eletrodomésticos, a TV do Braz. Não era nenhuma rede de varejo, era só uma boa loja.

Nas segundas-feiras em que o Palmeiras ganhava, jogadores passavam por lá. Invariavelmenre saíam com algum eletrodomésticos debaixo do braço, de presente.

Os atletas se sentiam premiados, Minguinho sentia orgulho de dar os regalos.E todos eram felizes.

Lembro-me de que numa renovação de contrato de Rivelino, já campeão do mundo, Vicente Matheus, que não era Presidente e sim diretor de futebol, lhe prometeu, além das luvas e salários que o clube oferecia, um carro zero quilômetro pago de seu próprio bolso, um Opala coupê, que nem era o mais valorizado automovel nacional. Mas na época fazia a diferença para um craque do prestígio de Rivelino.

Paulo Maluf tem duzentos defeitos como politico. Mas em 1970 resolveu doar um fusca para cada jogador da seleção campeã do mundo no México. Levou um processo e foi condenado em todas as instâncias.

Mas na ocasião os jogadores acharam o máximo e cada um ficou muito feliz com o presente.

Hoje em dia sou capaz de apostar que uma boa percentagem das vendas de Ferraris, no mundo todo, pertence a jogadores de futebol. Estes, só devem perder neste quesito para os Príncipes árabes.

Não conheço nenhum diretor de futebol que tenha uma Ferrari.

Não sei se na estrutura (ou seria melhor dizer na falta de estrutura do futebol atual, o diretor de futebol amador, aquele que só é diretor porque gosta do clube e nada recebe de salário, é ainda essencial.

Não sei se se mudamos para melhor. Tenho sérias dúvidas a respeito. Hoje, há poucos jogadores privilegiados. Mas como tudo é muito divulgado, como existem dezenas de canais de esporte e programas de esporte, a maioria de um bla-bla-bla insosso, isso aparentemente confunde os menos avisados. Acontece que a verdadeira herança da Lei Pelé, que arrasou com os clubes, é o espantoso desemprego e sub-emprego na categoria dos jogadores profissionais.

Você, que só acompanha o noticiário dos grandes clubes, nem imagina o que ocorre com equipes menores, com jogadores em inicio de carreira e com outros no final delas, que não ganharam na sorte grande, embora tivessem qualidade para brilhar em qualquer gramado do mundo.

O diretor de futebol? Só tem mesmo importância em clubes pobres, muito pobres.

EDGARD SOARES
Futebol Interior

2 comentários para "Espécie em extinção"

  • Sandow Feques

    A função do Diretor de Futebol atual requer uma formação capaz de evidenciar tal importância.Hoje, em alguns centros já existe cursos para tal finalidade, O grande problema é que ainda continuam colocando pessoas nesses lugares por amizade e não por competência. Se o mercado exige um profissional preparado é lógico que o mesmo deve ser remunerado e as equipes “pobres”, como cita o autor do texto, não tem condições financeiras de manter esse profissional. Então, convida o grande amigo para a referida função.Eu particularmente, sei da importância que tem um Diretor de Futebol dentro de uma equipe de Futebol, na verdade a grande função do mesmo é fazer o Futebol da equipe, montar a equipe, planejar todo o trabalho e finalmente associar-se aos demais para executar a gestão do Futebol da equipe. Não me resta dúvida da sua importância. Um grande abraço.

  • JEORGE

    Concordo com o comentário do Sandow , pois futebol hoje em dia não é mais brincadeira , é um negócio e se bem administrado gera lucro sim , e time de futebol para virar um clube empresa , precisa não só de um diretor de futebol mais tambem de um diretor de marketing , pois para se formar uma grande equipe sempre vai haver a necessidade de patrocinios que viabilzem as grandes contratações e assim incentivem os torcedores a irem ao estádio , aqui no nosso futebol o que observamos é que os nossos times nunca conseguiram passar para a condição de clubes pois falta justamente saber vender a imagem ,isto é ,mostrar para as empresas não só daqui mais de fora tambem a segurança de investimentirem no futebol , que hoje é um dos negócios mais rentaveis , temos que saber vender o nossa prata de base , para que grandes clubes tenham interesse em fazer parcerias com o nossos times ,